A rua em forma de calha, inclinada de lado a lado, acentuava-lhe ainda mais a escoliose. Nem por isso andava devagar. O contra-peso de sua tortisse conferia-lhe o equilíbrio necessário para andar rápido, acelerado, duro como uma máquina. Ela vinha um pouco mais atrás, andava devagar, não por nenhuma deformidade, ou por algum efeito da senescência, seu único defeito era ater-se aos detalhes, às desnecessidades, ao irrelevante. Encantavalhe naquela rua de calha central, as pedras irregulares, milimetricamente justa-postas num enorme jogo de quebra-cabeças aleatório, em que a imagem formada não está estabelecida, vai se formando, é o jogar quem decide o aspecto final, a única regra é a justa posição. Enquanto ela olhava esses encaixes improváveis, pensava na vida. Em outros tempos, estariam andando de mãos dadas. Em que momento aquele encaixe deixou de ser perfeito? Que imagem o quebra-cabeças de sua vida teria formado? Estava perto demais para ver?Antes que pudesse vislumbrar qualqu...
Se é uma briga pra mostrar quem tem mais força, ouça Não faço muita questão Sou magra de corpo, sem músculos fortes Minh'alma é a arma, não tens esse porte E não que eu me importe, mas vou te dizer Eu tenho suporte, eu suporto perder Suporto Perder - Igor de Carvalho/Flaira Ferro Vinte e oito de outubro de 2018. Sofá de casa, crianças dormindo, olhar incrédulo para a transmissão do YouTube. Na reta final da campanha, Andrade (como era conhecido o desconhecido Fernando Haddad) parecia que ia ganhar tração e vencer as eleições. Mas a partir das 17h10 daquele domingo, Bolsonaro passa a frente nas apurações e não oscila mais. Foi muito difícil de engolir, muito difícil de aceitar. A negação do luto não veio acompanhada da raiva, mas de medo. Dias antes, no primeiro turno das eleições, Moa do Katendê foi morto na Bahia com 12 facadas, por ter afirmado que votou no candidato do Partido dos Trabalhadores. Medo, pois o candidato vencedor e seus eleitores nunca negaram o ódio que sen...
O Homo Desenvolveu sapiência artificial Criou o mundo Na palma de sua mão Digital Encantado pela própria criação Foi se curvando Cada vez mais Se ajoelhando Fazendo reverências Para ela Em casa No ônibusno trânsito Na hora de comer Na hora de dormir Na hora de cagar Sem hora A toda hora Começou a viver por E para ela Nessa atitude de cérvico-flexão Permanente Veneração em Tela Tal qual batráquio Perdeu a capacidade De erguer A cabeça E olhar Pro céu
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