Quebra-cabeças



A rua em forma de calha, inclinada de lado a lado, acentuava-lhe ainda mais a escoliose. Nem por isso andava devagar. O contra-peso de sua tortisse conferia-lhe o equilíbrio necessário para andar rápido, acelerado, duro como uma máquina. 

Ela vinha um pouco mais atrás, andava devagar, não por nenhuma deformidade, ou por algum efeito da senescência, seu único defeito era ater-se aos detalhes, às desnecessidades, ao irrelevante. Encantavalhe naquela rua de calha central, as pedras irregulares, milimetricamente justa-postas num enorme jogo de quebra-cabeças aleatório, em que a imagem formada não está estabelecida, vai se formando, é o jogar quem decide o aspecto final, a única regra é a justa posição.

Enquanto ela olhava esses encaixes improváveis, pensava na vida. Em outros tempos, estariam andando de mãos dadas. Em que momento aquele encaixe deixou de ser perfeito? Que imagem o quebra-cabeças de sua vida teria formado? Estava perto demais para ver?Antes que pudesse vislumbrar qualquer possibilidade, teve os pensamentos cortados:

- Anda! Vamos perder o pôr-do-sol - disse ele, sem se virar para falar.
- Como se sua pressa fosse fazê-lo baixar mais rápido - respondeu ela, sem a intenção de ser ouvida.

A menos de 50 passos estava a orla do Del Plata.O sol tingia de laranja os seus rostos, suas roupas, seus pensamentos.

Pelas telas de seus celulares cada um via o seu pôr-do-sol individual, sem trocar palavra, ou olhares. Uma garota que passava pela calçada pergunta:

- Querem que eu tire uma foto de vocês?

Eles se entreolham desconfiados. O desconforto é originado mais da falta de intimidade entre si, do que entre eles e a estranha. 

Sem saber muito bem o que responder, e imaginando o que a negativa poderia revelar de um para o outro, ou de ambos para a desconhecida, concordaram de forma tímida. Dão as costas para o sol, encostam no gradil (mas não um ao outro) e "sorriem" para a câmera.

- Assim não está bom. Podem chegar mais perto?

Timidamente, como dois desconhecidos, dão um passo em direção ao outro.

- Não, ainda não. O senhor pode olhar pra ela? Assim não. Olhar nos olhos. Ainda não. Olha nos olhos, olha como você olhou pra ela no dia em que se conheceram.

Como no dia em que se conheceram.

Ele se vira para olhá-la, a primeira vez em tantos anos. Quantos? Nem lembra mais. Seus olhos ainda guardam aquele brilho. Neles pode ver o pôr-do-sol.

A desconhecida devolve o celular, mas eles não mais a escutam, estão presos naquele instante, naquela mirada. Ficam assim, paralisados, até que não haja mais luz do sol para refletir. Naquela foto formou-se a imagem do quebra-cabeças.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Jaloca - o dono da bola

Homo sapo