Jaloca - o dono da bola
Se é uma briga pra mostrar quem tem mais força, ouça
Não faço muita questão
Sou magra de corpo, sem músculos fortes
Minh'alma é a arma, não tens esse porte
E não que eu me importe, mas vou te dizer
Eu tenho suporte, eu suporto perder
Suporto Perder - Igor de Carvalho/Flaira Ferro
Vinte e oito de outubro de 2018. Sofá de casa, crianças dormindo, olhar incrédulo para a transmissão do YouTube. Na reta final da campanha, Andrade (como era conhecido o desconhecido Fernando Haddad) parecia que ia ganhar tração e vencer as eleições. Mas a partir das 17h10 daquele domingo, Bolsonaro passa a frente nas apurações e não oscila mais.
Foi muito difícil de engolir, muito difícil de aceitar. A negação do luto não veio acompanhada da raiva, mas de medo. Dias antes, no primeiro turno das eleições, Moa do Katendê foi morto na Bahia com 12 facadas, por ter afirmado que votou no candidato do Partido dos Trabalhadores. Medo, pois o candidato vencedor e seus eleitores nunca negaram o ódio que sentiam por seus opositores. Como será a vida a partir de agora? O que nos vai acontecer? O que podemos fazer? De nada ia adiantar enterrar os livros, as redes sociais, os posicionamentos políticos abertos, a postura na vida, colocavam um enorme alvo no centro de nossas testas. Só sabíamos viver dentro de uma democracia.
Raiva, barganha, depressão… tudo isso passou por nossas cabeças, por nossos corações. Aquelas semanas após a eleição foram recheadas de angústia, aperto no peito, dificuldade para dormir. Só pensava nos filhos, na família. Se para mim, um homem, cis, hetero, de classe média, estava difícil, imagina para os amigos pretos, gays e pobres. Para alguém pragmático demais, os pensamentos martelavam e pintavam apenas os piores cenários. Pensamentos que só faziam piorar aquele misto de luto e medo. Quando me vejo muito envolvido pela tristeza ou pela angústia, só a música me salva, nessas horas paro para ouvir Geraldo Azevedo. Escutei incontáveis vezes, em loop, a Canção da Despedida:
Já vou embora, mas sei que vou voltar
Amor, não chora, se eu volto é pra ficar
Amor, não chora, que a hora é de deixar, uh
O amor de agora, pra sempre ele ficar
Eu quis ficar aqui mas não podia
O meu caminho a ti não conduzia
Um rei mal coroado
Não queria o amor em seu reinado
Pois sabia não ia ser amado
Mas essa canção não ajudava. Ir embora não era uma opção, por mais que a ideia tenha passado inúmeras vezes pela cabeça. Nessas idas e vindas, entre outras canções, me pego ouvindo Suporto Perder. Eu tenho suporte, eu suporto perder. Eu tenho suporte, eu suporto perder. Eu tenho suporte, eu suporto perder. O refrão se repetindo em loop dentro da minha cabeça. Eu tenho suporte, eu suporto perder. A canção ressignificando o movimento “Ninguém solta a mão de ninguém”. Eu tenho suporte.
Passados quase 07 anos daquela fatídica noite, é divulgado na imprensa que o vencedor de 2018, tentou um golpe em 2022 porque não aceita perder. Até os cinco anos de idade, meu filho não suportava perder, adorava disputar, mas não sabia lidar com a derrota. Se a música é curativa para os adultos, as histórias o são para as crianças. Durante muitas noites li a história de Caloca, O Dono da Bola, para ele dormir. Não posso afirmar, mas suponho que a expressão “dono da bola” venha de Ruth Rocha. Bolsonaro precisa sair dos cinco anos. Não suporta perder. Ele tentou melar o jogo, tentou levar a bola embora. Hoje, sabemos que, por conta de outros jogadores, a partida seguiu, a bola ficou em campo. Impossibilitado de levar a bola, foi-se ele embora, sozinho, com carteira vacinal falsa para os Estados Unidos.
Dentro em breve, na cadeia, terá tempo de ler Ruth Rocha, e até ouvir Flaira Ferro. Quem sabe, assim, comporte-se como um menino grande.
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